Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Terça-feira, 17 de Abril de 2007
Educar o Povo?

Mais uma vez José António Saraiva me faz sentir "próximo" da sua linha de pensamento. A propósito do pequeno caso da licenciatura do nosso Primeiro Ministro, escreve ele, no “Sol” de 14 de Abril, que o povo português anda “a brincar com o fogo”, dando relevância a coisas menores, com isso impedindo o Governo, qualquer Governo, de pôr em marcha as necessárias reformas de que o país necessita.

Não vou propriamente falar de tal assunto, pelo menos nos termos e com o alcance que o director daquele semanário dá ao acontecimento.

Direi até que me parece tardia a sensação de que, é por coisas deste género que às vezes, “numa esquina da história, aparece um Salazar que faz com que o povo português se governe, porque a isso é obrigado”.

São palavras dele, José António Saraiva, e quem sou eu para pôr em causa o que ele diz…

Sucede porém que esta referencia acima transcrita, e que vem na parte final da sua coluna “Política a Sério”, parte de uma suposta verdade histórica.

Sucintamente o que José António Saraiva quer dizer é o seguinte:

-o povo português perde-se a dar importância a coisas que a não têm, e com isso impedem os Governos de agir como deviam, bloqueando a aplicação das medidas necessárias. Tratar-se-à de um povo ingovernável (tanto quanto me lembro já nos seus tempos do “Expresso” defendia ideias semelhantes), e vai daí vamos recordar o que um célebre general romano mandou dizer para Roma a propósito de um pequeno povo que habitava aqui para os lados desta Península: “Trata-se de um povo que não se governa nem se deixa governar”.

Não seria preciso ir tão longe na História.

Ao que consta, já depois do 25 de Abril, o ilustre Professor Doutor Mota Pinto, quando chegou a Primeiro Ministro, terá desabafado, num círculo restrito de amigos, ou de pessoas que lhe eram mais próximas, dizendo mais ou menos a mesma coisa, ou, pelo menos, expondo a mesma ideia, com isso querendo mostrar quão difícil é adoptar quaisquer novas medidas de estratégia política a um povo que, dominado, ou condicionado, por determinados clichés pós revolucionários, e conduzido num percurso de permanente arrogar de direitos, aparente esquecer rápidamente os deveres a que está obrigado.

O que me interessa aqui questionar é exactamente isso…

Donde vem essa história de que já no tempo dos romanos o povo da Lusitânia era tão “tolo” que não se governava nem se deixava governar?

Quem era o famoso general romano que terá dito tal coisa?

Sabendo-se ainda por cima, pelo menos tal como a História nos ensina, que para os Romanos, pelo sentido de superioridade que tinham em relação à generalidade dos povos e das civilizações, todos aqueles que lhes resistissem, e não pensassem de acordo com os seus códigos de valores eram “uns atrasadinhos”?

E depara-se-nos esta coisa curiosa:

-Será que os portugueses deram alguma importância de maior à questão de saber se José Sócrates é ou deixa de ser engenheiro?

-Será que os portugueses passaram os últimos tempos presos às notícias de saber se mais algum escândalo tinha rebentado a tal propósito?

Francamente, quem é que quer fazer dos portugueses tolos?

Não tem havido dia nenhum em que os órgãos de comunicação social, na sua esmagadora maioria, não apareçam com uma nova notícia a este respeito, seja a da multiplicação dos documentos, seja insinuando favores obscuros, seja lá o que for que torne a coisa sensacionalista.

E depois vem dizer-se que os portugueses andam a brincar com o fogo?

Tenho pena, mas a pergunta impõe-se:

-quem é que anda a brincar com os portugueses?

-a quem é que serve a história da licenciatura do Primeiro Ministro?

-como se chamava o general romano que mandou para Roma o tal recado?

E como não sou de me ficar na inconsequência das coisas ainda há que perguntar mais:

-que interesses económicos dominam os vários sectores da nossa informação?

-que interesses económicos dominam o país?

-quem manda afinal aqui?

Às vezes apetece dizer a certas pessoas que o tempo dos grandes educadores do povo já lá vai.

Os chineses tiveram um chamado Mao Tsé Tung.

Em Portugal havia alguém que se intitulava “grande educador da classe operária”.

Quando chegará o dia em que será o povo português a “educar” alguém?

Já vai sendo tempo.

 

Henrique Dias Pedro



publicado por H.Dias Pedro hdp às 00:14
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1 comentário:
De Anónimo a 18 de Abril de 2007 às 01:32
Caro autor, dou-lhe os meus parabens pelo escreveu, não podia estar masi de acordo com o que disse. Então a culpa do "estado das coisas" em Portugal é do povo e não de quem não cumpre as suas funções?? Deixem-me só fazer esta pergunta, então num país como a Inglaterra ou os EUA onde os respectivos médias são auténticos "stockers" e sanguessugas, aí o povo, apesar do rídiculo sensacionalista e tendencioso modo de agir dos media que se cingem ao aumento de vendas não consegue atingir os cidadãos nacionais destes povos? Será que ninguém ouviu falar das empresas freelancer de paparazzi britânicas? Talvez agora venham dizer que lá para esses lados o sensacionalismo seja diferente do que o de cá!! Mas não me parece, lá é muitíssimo pior!! mas a Grã-Bretanha continua a ocupar um lugar cimeiro e de relevo entre os Estados Europeus!! Quanto ao general romano gostava apenas de fazer uma curta observação, o império romano do Oriente caiu a 476, e o império romano do ocidente caiu a 1453. Não me vou pôr aqui a mencionar as causas da divisão do império, vou sim apenas salientar o facto de que, tendo este último sucumbido definitivamente em 1453 às invasões bárbaras, Portugal como Nação já existia. Mais, já era um povo muitíssimo influente entre os demais do mundo. Sendo que pouco depois Portugal era uma das, senão a Nação mais importante do Mundo, tendo feito façanhas que mudariam e moldariam a história humana para sempre, gostava de perguntar a quem se baseia nas pretensas afirmações de um antigo general romano, o que disseram os últimos generais do império romano do ocidente em meados do séc.XV acerca do Portugal de então??? Pois esse boato já não chegou até nós!! É incrível como se podem dizer imensos disparates acerca do próprio povo pessoas que pelo seu lugar de destaque deveriam pensar primeiro antes de as proferir! Por isso meu caro autor não posso estar mais de acordo consigo em tudo o que referiu!!! Deixo aqui uma vez mais a crença, senão mesmo a convicção de que Portugal e o povo português são uma Nação cheia de valor e qualidade!!! Um Grande Abraço Nuno Guilherme


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