Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Terça-feira, 24 de Abril de 2007
A Grande Roda das Ilusões

Durante a semana que passou falou-se muito em Portugal de extrema-direita. Arregimentaram-se “tropas” de opinião para tentar impedir uma anunciada concentração de organizações ditas “nacionalistas”, portuguesas e estrangeiras, apontando à maioria delas a defesa de ideais nazis e fascistas, xenófobos e anti-democráticos.

Os órgãos de comunicação social falaram abundantemente de tal assunto, mas também representantes de alguns partidos políticos, e quase sempre com um tipo de discurso anti qualquer coisa, denotando medo, como se viesse por aí o “papão” da democracia.

Não resisto a dizer que começo a fartar-me desta espécie de “retrocesso cultural” alimentado pelos supostos primeiros e grandes defensores dos ideais democráticos.

Sendo claro que sou partidário do pluralismo de opiniões, desde que a sua defesa se mantenha dentro dos princípios do rigor, da ética e do respeito, não sou declaradamente defensor de qualquer tipo de ideologia extremista, e muito menos aprovo a existência de organizações nazis  e xenófobas.

Aliàs, e por aquilo que veio a verificar-se, as nossas organizações policiais, cumprindo de resto a sua função em defesa da lei, neste caso a Constituição da República, andavam já há bastante tempo a fazer sérias averiguações que culminaram na detenção de elementos desses grupos, aos quais inclusivamente apreenderam vário e sofisticado armamento.

Disto tudo resultou o cancelamento do previsto “encontro nacionalista”, promovido, pelo menos em parte, por um partido político português, o PNR, que está ao que sei devidamente legalizado, tendo todo o direito, como os demais partidos políticos, de vir a público defender as suas opiniões.

É aqui precisamente que residem as minhas duas  principais preocupações sobre este asunto.

Não é que eu preconize a proibição do PNR.

Desde que tal partido cumpra as regras da vida democrática, a mim tanto se me dá que seja de extrema direita, ou de extrema esquerda, que afixe cartazes a dizer mal dos imigrantes, ou que organize encontros internacionais.

A esse respeito o povo português já muitas vezes disse o que pensa, e no que concerne a opções políticas “extremistas”, mesmo apenas no plano teórico e sem qualquer conotação com acções de violência armada ou outra, os portugueses têm tido a sensatez de dizer que “extremismos não, muito obrigado”.

O problema no entanto complica-se quando os órgãos policiais vêm dizer que as organizações armadas que foram objecto da recente acção policial têm ramificações em vários planos sociais, inclusivamente nas claques de futebol.

Convém perceber que estamos decerto a falar de uma “minoria”, mas também convém termos a noção de que há “minorias” e “minorias”.

As claques de futebol são, ao que julgo saber, na sua esmagadora maioria compostas por gente jovem. Gente jovem, entenda-se, nascida em grande parte já em plena vigência do regime democrático em Portugal.

Ora, descontando aqueles elementos que possam ser, digamos assim, os motores de opções de extremismo violento, a pergunta que me ocorre é se alguém já se preocupou em perceber porque é que isso acontece?

Dito de outro modo: qual a razão porque alguma da nossa juventude acaba por fazer opções de índole política e social completamente desfasadas da evolução do país?

Relembremos o que tem acontecido em alguns países europeus, designadamente a França, e ainda muito recentemente em cima do termo da campanha eleitoral para as eleições presidenciais.

E esta é precisamente a minha segunda grande preocupação.

O que se constata é que estamos a falar de algo que se parece com um movimento que começa a alastrar pelo Continente Europeu, e tendo eu, como facilmente se pode concluir pelos textos que vou escrevendo, fundadas dúvidas quanto ao êxito das políticas que a Europa está a adoptar, interrogo-me se não se estará a abrir caminho à proliferação da violência em nome de uma recusa de um sistema político?

É que, se é esse o caso, então somos todos responsáveis por isso. Mesmo aqueles que, como eu, não acreditam no sucesso de uma União Europeia feita a trouxe-mouxe para satisfazer as ancestrais gulas “imperiais” de dois ou três grandes estados.

E aqui a preocupação torna-se particularmente grave.

É que não é pelo facto de a polícia portuguesa, espanhola, ou de outro país qualquer, prender meia dúzia de indivíduos e armas, que se apagam os ideários na cabeça das pessoas.

O que isto significa é que o gérmen do dito “nacionalismo armado” anda por aí, e aquilo que será hoje uma minoria, poderá deixar de o ser a qualquer momento.

E se há coisa que se torna cada vez mais sensível é aquela espécie de “éden abstraccionista” em que vivem as actuais classes políticas que ocupam o poder.

Na maior parte dos casos não conhecem verdadeiramente o povo, o seu quotidiano, as suas fragilidades.

E nada é melhor à proliferação das ervas daninhas que um terreno em pousio, deixado completamente entregue aos acasos da sorte.

Como em tudo na vida, também na política é precisa alguma dose de “sorte”.

Mas não chega.

Tenho-o dito, e cada vez mais me convenço, que aos nossos políticos, portugueses e não só, que nos vão governando aqui, em Londres, em Bruxelas, ou em qualquer outro sítio, falta ainda muito “trabalho de casa” por fazer.

E para falar francamente, continuo a ouvi-los debitar discursos como se vivêssemos no melhor dos mundos.

As ilusões às vezes pagam-se caro.

 

Henrique Dias Pedro



publicado por H.Dias Pedro hdp às 00:01
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