Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Terça-feira, 8 de Maio de 2007
O Aniversário

Se Francisco Sá Carneiro fosse vivo estaria hoje a cerca de dois meses e meio de completar 73 anos.

Com efeito nasceu em 19 de Julho de 1934.

Anteontem, 6 de Maio de 2007 celebrou-se mais um aniversário do PSD, fundado em Maio de 1974 precisamente por Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota.

Na altura chamado PPD, Partido Popular Democrático, viria a ser determinante, dentro dos condicionalismos de uma época dominada pelos ecos do revolucionarismo gratuito, como factor de estabilidade e segurança políticas, estancando a corrente comunista e de esquerda radical que varria o país de norte a sul.

Defensor de um regime democrático humanista e personalista, o Partido apontava já nessa altura as baterias da sua fundamentação ideológica para os sistemas políticos (então muito em voga) das democracias nórdicas, onde pontificava o regime sueco, paradigma primeiro da social democracia europeia.

Remando contra ventos e marés de esquerda, e uma estrutura político-militar completamente dominada pelos aparelhos políticos dos “chamados” partidos progressistas ( como isto hoje soa e sabe a mofo) Sá Carneiro desde cedo se posicionou, de entre os fundadores do Partido, como o melhor colocado para encabeçar uma luta política que, contribuindo para o desenvolvimento do país, não permitisse Portugal deixar ao esquecimento as suas genuínas raízes e valores histórico-culturais.

Era o próprio Sá Carneiro quem dizia que “povo que esquece o seu passado não está em condições de perceber e ganhar o futuro”.

De  modo gradual e seguro foi ganhando o respeito do País, apresentando-se como a única verdadeira e democrática alternativa de governação à esquerda predominante, e ao fim de cinco anos de tresloucada viagem portuguesa pelos arraiais da festança revolucionária, Sá Carneiro, liderando a famosa AD, Aliança Democrática, com Freitas do Amaral do CDS e Ribeiro Teles do PPM, consegue a primeira maioria absoluta da história da democracia portuguesa.

Olhando o aniversário agora comemorado, e um certo ar de incerteza ou demasiada mansidão nos festejos, em pleno contraste com o estilo guerreiro e frontal que Sá Carneiro assumia em todas as lutas políticas que abraçava, vale a pena respigar uma ou outra referencia a intervenções políticas do próprio, quando, assumindo a coragem de quem sabe o que quer e porque defende determinadas ideias, de espírito aberto e sem pesos na consciência derivados de compromissos de circunstancia, ainda era possível a alguns (poucos) dizerem em Portugal o que realmente pensavam.

No discurso de apresentação do Programa de Governo na Assembleia da República em Dezembro de 1979, Sá Carneiro disse:

 

-A política do Governo é por natureza humanista no projecto, portuguesa na raiz e europeia na vocação.

-O Governo não ignora que lhe cabe ajudar a construir as condições que permitam aos portugueses ter consciência da sua identidade nacional e orgulhar-se de uma Pátria justa, pacífica e próspera.

-Aos cidadãos o Estado deve dar mais em troca do que lhes pede, ou pedir menos do que aquilo que está em condições de reciprocamente lhes dar.

 

Este era o PPD (mais tarde PSD) da mudança.

Aquele em que uma larga maioria de portugueses acreditou.

E retenha-se que, de um modo geral, os cidadãos só acreditam num Governo ou no Seu Programa, se nele virem retratados os seus problemas mais urgentes, e se sintam identificados com as propostas, as ideias, o líder.

 

As perguntas são:

-Será este o Partido que está hoje na oposição?

-Será este ainda o Partido em quem os portugueses acreditam ser capaz de promover a mudança e o desenvolvimento?

-Alguma vez Sá Carneiro se deixou enredar nas teias armadilhadas pelos chamados independentes?

 

Uma rápida viagem pelos tempos mais recentes da vida política portuguesa, e que atravessa todos os partidos do nosso espectro político, mostra-nos que, salvo uma ou outra excepção que de facto apenas serve para confirmar a regra, o chamado “independente” é na maioria dos casos o primeiro a estar disposto a “furar” o esquema, a trair quem lhe deu visibilidade, porque não passa de um arrivista a querer chegar ao poleiro a qualquer preço, e depois sair de lá quase exige um mini golpe de estado.

 

Sá Carneiro não deixaria alguma vez que, figuras híbridas e apenas teoricamente comprometidas, se servissem do nome e influencia do Partido para fazer aquilo que em gíria se chama “meter areia na engrenagem”, ou por dá cá aquela palha criarem instabilidade interna, divisões sem sentido entre militantes, trunfos de mão beijada aos adversários políticos do PSD.

 

O célebre Congresso de Aveiro foi o exemplo acabado de um homem vertical, de uma só palavra, incapaz de trair os amigos, mas também absolutamente inacessível para os “falsos amigos” de que a política portuguesa está infelizmente enxameada.

 

O que é triste constatar, e isto sem desprimor para as qualidades pessoais da maioria deles,  é que o PSD não voltou a ter ao leme homens da mesma estirpe e frontalidade.

 

De todos os que se lhe seguiram talvez apenas Cavaco Silva se aproxime da figura do político que Sá Carneiro foi.

 

Começa a ser urgente o PSD retornar às suas raízes e fazer o seu verdadeiro caminho.

 

Henrique Dias Pedro



publicado por H.Dias Pedro hdp às 00:09
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1 comentário:
De Anónimo a 23 de Maio de 2007 às 21:52
Caríssimo autor, apreciei bastante este texto. Apesar de ser evidente e do conhecimento geral que infelizmente hoje em dia a oposição pouco ou nada de oposição tem ou consegue, e mesmo até de que muitas são as oferendas que políticos destreinados dão a esta maioria mentirosa e contraditória, uma pergunta fica no ar, pergunta essa que foge um pouco ao tema ou assunto principal do seu artigo. E é ela: Quem ordenou o ataque ao avião onde seguia Sá Carneiro? Será esta uma das maiores vergonhas da investigação criminal portuguesa e da determinação política transparente?? Como é possível passados tantos anos não se ter ainda culminado este caso levando os responsáveis do ataque aos tribunais?? Dizem que não há crimes perfeitos, mas crimes sem consequente julgamento e condenação lá isso parece que há. Só espero que os seus autores não sejam pessoas respeitadas na nossa sociedade ou mesmo até noutras nossas vizinhas o que tranformaria as democracias tal como as vivemos e conhecemos numa perfeita fantochada manobrada pelos verdadeiros grupos de poder que existem nas nossas sociedades... Um Grande Abraço Nugui


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