Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Terça-feira, 22 de Maio de 2007
Ficar na História

De vez em quando as motivações para tratar um qualquer tema vêm de momentos ou “provocações” absolutamente inesperadas.

Lendo por mero acaso uma Revista dedicada à música, sou surpreendido por um artigo com o seguinte título:

 

-Por acaso alguma das actuais bandas musicais vai ficar para a história?

 

Esta aparentemente inofensiva pergunta causou-me um duplo efeito.

Desde logo recuar alguns anos e lembrar bandas musicais que realmente ficaram para a história.

Nomes?

Beatles, Rolling Stones, Doors, Moody Blues, Super Tramp, Bee Gees, Kinks, Les Chats Sauvages, Beach Boys, Dire Straits, Deep Purple, Far Corporation, Pink Floyd, Shadows, Mammas and Pappas, Abba, Queen,  e mais uns quantos cujos êxitos ainda hoje passam nas rádios e televisões de todo o mundo, sinal óbvio de estarmos a falar de nomes marcantes na revolução musical da segunda metade do século XX.

E se fôssemos falar de cantores a solo o rol seria provavelmente muito maior.

 

O segundo efeito da pergunta obrigou-me a deixar a música e pensar em coisas sociais e  políticas, tanto a nível nacional como internacional.

 

E como que movido por um insensível comando à distancia, dei por mim a pensar nos nossos actuais políticos, sobretudo os que estão actualmente no poder, ou que andam lá perto e gravitam à volta dele, e com especial incidência nos tempos que vivemos, aqui considerando a fase final do século passado, sobretudo a partir de 1974, e este início de século XXI.

 

E a pergunta óbvia que se me apresentou foi esta:

 

-Será que algum destes políticos vai ficar para a História?

 

Façamos primeiro um exercício conceptual.

O que é isso de ficar para a História?

Claro que há mais do que uma resposta possível a tal questão, e o ângulo de análise em que cada um se colocar permite abrir o leque de conceitos admissíveis.

Há porém um ponto que me parece inultrapassável.

Ficar para a História simboliza algo especialmente marcante, definidor de caminhos, condutor de ideias e modelador de critérios, alguém que, pelo seu especial carisma, merece a opinião generalizada – mesmo daqueles que com ele, ou ela, não concordam – que deixou a sua marca pessoal na política portuguesa.

Expondo aqui a minha própria opinião pessoal a tal propósito, dou o exemplo de alguém que, estando nos antípodas do meu pensamento e filosofia política, e por isso mesmo absolutamente distante das minhas convicções e escolhas, me merece no entanto o respeito que acho devido à sua coerência e frontalidade, à influencia que de facto teve nos caminhos trilhados pela política portuguesa, estando no rol daqueles políticos que eu considero que ficarão para a História.

Estou a referir-me a Álvaro Cunhal.

Como poderia referir os nomes, para mim indiscutíveis, embora por razões diferentes, de Sá Carneiro, Mário Soares, António Spínola, Costa Gomes, e talvez Ramalho Eanes.

 

Mas dos mais próximos no tempo, há alguém?

 

Curiosamente apetece-me primeiro recuar no tempo e, de entre várias figuras da nossa História, escolher uma para referencia.

No meu artigo no blog das quintas feiras (Concreto e Imaginário), escrevi a semana passada, a propósito das “Divisões Ibéricas”, o seguinte:

-Abençoada Restauração de 1640.

 

Ora bem…por hoje escolho D. João IV.

Não sendo dos nossos Reis mais falados, e talvez por isso dos menos conceituados para ficar na História, a verdade é que teve um papel determinante na estabilização do país, logo a seguir à revolta dos “Conjurados” que pôs fim ao domínio espanhol.

 

A verdade é que foi D. João IV quem conseguiu reorganizar o aparelho militar, garantiu a manutenção da defesa de zonas interiores de Portugal, designadamente as Beiras e o Alentejo, promoveu uma hábil actividade diplomática junto das restantes cortes europeias, conseguiu importantes apoios finaanceiros, e acima de tudo conseguiu que as restantes nações reconhecessem a Restauração do Reino de Portugal.

Não tendo conseguido acabar todas as tarefas que iniciara, D. João IV deixou bases suficientemente sólidas para Portugal vencer a crise resultante de praticamente se reconstituir uma identidade nacional a partir do zero.

De facto sessenta anos de domínio estrangeiro é muito tempo.

 

Não deixou obra feita?

E com relevância para o futuro de Portugal?

Merece ou não ficar na História?

A resposta a todas estas questões é para mim indiscutivelmente afirmativa.

A sua memória está recordada numa lindíssima terra portuguesa, onde ele de resto nasceu: Vila Viçosa.

E já agora, recorde-se também, foi ele o primeiro Rei directamente descendente da Casa de Bragança.

Seu pai,  Dom Teodósio, era o sétimo Duque de Bragança.

 

Bem…avancemos outra vez no tempo.

E hoje?

Claro, os tempos são outros, e são também diferentes as exigências, mas, ressalvadas as necessárias mudanças, não podemos evitar a comparação com outras figuras mais recentes, e de que já falámos no início deste texto.

 

Apetece-me desabafar…

“Pobreza Franciscana”, não encontro um político neste início de século que tenha deixado, ou que eu acredite vá conseguir deixar, a sua marca pessoal na evolução e desenvolvimento de Portugal.

E isto sejam políticos no poder ou na oposição.

Têm normalmente uma boa presença em público, falam bem, vestem bem, mas quanto a ideias inovadoras e, sobretudo, soluções para os problemas do país, estamos conversados.

Aliàs, os nossos políticos sofrem de um problema que começa a tornar-se crónico.

Fazem ou não fazem isto ou aquilo, revelam-se destemidos chefes políticos ou preferem ficar na pacatez de “não me incomodem se fazem favor”, porque desempenham em regra as suas funções sempre a pensar em objectivos pessoais mais largos, como por exemplo, “qual o próximo cargo que me interessa ocupar”.

 

Com o devido respeito: assim não!

E, se isto se aplica aos dois principais partidos políticos portugueses, colhe também perfeitamente nos outros.

 

Não se vislumbra alguém de quem possamos pensar:

-daqui a 100 anos estará a ser referido e estudado na História de Portugal porque, deixou obra feita, foi especialmente importante no desenvolvimento do País, e tem carisma de líder.

 

Francamente, Portugal está a precisar que os homens e mulheres de indiscutível qualidade se deixem atrair pela vida política, e apaguem a má imagem dos que ultimamente têm passado pelo poder.

 

Está a ser cada vez mais urgente!

 

Henrique Dias Pedro



publicado por H.Dias Pedro hdp às 00:09
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1 comentário:
De Anónimo a 23 de Maio de 2007 às 18:02
Caríssimo autor, em primeiro lugar folgo em vê-lo escrever sobre algo que á muito fe cria interrogações, e isto respeitante à primeira parte do seu texto, isto é, à música. Concordo inteiramente consigo, apesar de ser criada e existir nos nos dias música com qualidade, esta última fica muito àquem daquela que foi anteriormente criada, e hoje, tenho infelizmente que admitir, que o que domina as tabelas musicais e esta indústria são musicas que de qualidade pouco ou nada têm, construídas de acordo com o ou os paradigmas culturais que hoje predominam, e feitas para estarem umas semanitas no topo das tabelas e principalmente para venderem, o lema hoje é vender o máximo possível!! Não estou a ver os meus filhos ou os meus netos daqui a 40 ou 50 anos a ouvirem byoncé, robby williams, 50 cents, boys bands ou girls bands, etc, etc, etc... Uma coisa a obeservação até menos detalhada da história mundial e humana nos ensina, a vida humana processa-se por ciclos, possuindo muitos deles um cariz ou índole cultural, que muitas vezes sem saber como, surgem e dominam o paradigma cultural, e os gostos, comportamentos, atitudes, e aptidões das massas. Onde estão os artistas musicais dos anos 20?? É engraçado de reparar também que nalguns ciclos se cria no domínio das artes muitas e ao mesmo tempo obras primas artísticas, e noutros, como é o caso dos nossos dias, a corrente dominante assemelha-se a uma cultura do "lixo"!! Veja-se por exemplo que algumas das bandas musicais referidas no artigo acima, surgiram no mesmo contexto e espaço temporal, como é o caso dos rolling stones, dos queen, dos scorpions, dos dier straights, etc, etc, etc.... Acho curioso este modo de ser do homem e da sua cultura... Quanto à sua parte do seu artigo caro autor, vou de encontro ao que escreveu, o que se passa está intimamente conexado com os factores sociais e culturais que referi em cima a propósito do paradigma musical, de facto não vejo nos dias que correm personalidades políticas que possam marcar o mundo com as suas ideologias, carisma, competência, coragem e atitudes.De facto, era necessário que surgisse um Mourinho no campo político.. Mas esperemos pelo próximo boom cultural e por certo que um líder esperado, marcante e competente surgirá...Um Grande Abraço Nuno Guilherme


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