Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Terça-feira, 29 de Maio de 2007
"O Terreiro do Paço"

Mudar de opinião.

Eis uma atitude sujeita a diferentes análises e certificações, partindo sempre do princípio básico que “mudar de opinião” é normal, uma forma de estar inteligente, traduzindo flexibilidade de raciocínio, de partilha, de comunicação e entendimento.

Muito bem, aceitemos o princípio.

É humano, desde logo porque, em situações, digamos menos acutilantes ou sensíveis, somos forçados a reconhecer que erramos, e se a reparação do erro cometido nos leva a outra atitude ou escolha, estaremos naturalmente a mudar de opinião.

Mas isto aplica-se a tudo?

No linguajar português há uma expressão curiosa, de resto como muitas outras, e que, quando é usada, traduz quase sempre um juízo negativo sobre alguém.

Essa expressão é: “vira-casaca”.

Alguém que até determinado momento da sua vida defendeu sempre os mesmos valores e princípios, foi sempre adepto do mesmo clube desportivo, sempre apoiante ou simpatizante de determinado político ou partido político, mantendo “religiosamente” uma estreita lealdade ao mesmo grupo de amigos, e outras coisas do género.

De repente, e sem que nada aparentemente o explique, a pessoa em causa altera as suas escolhas, foi desleal a um amigo em troca, por exemplo, de favores de um terceiro, mudou de clube, saiu do partido onde estava há muitos anos e filiou-se noutro, passou a apoiar pessoas que até então nem sequer tolerava, etc…

A resposta mental, quando não mesmo expressa, que o comum dos portugueses tem para situações deste género é profundamente negativa, e o juízo que se elabora a tal propósito vem normalmente acompanhado de adjectivos não muito abonatórios como “traidor”, “garoto”, “canalha”, “ingrato”, e ainda mais um rol semelhante.

O artigo de hoje tem o título “O Terreiro do Paço”, e o que se perguntará é o que tem a ver uma coisa com a outra.

Tem tudo.

Obviamente que estou a falar em questões relacionadas com opções políticas, e, sobretudo, com as célebres “promessas” que nas campanhas eleitorais os candidatos (e aqui sem distinção de partidos ou pessoas) normalmente fazem.

O Terreiro do Paço, bonita praça da nossa capital que umas mentes “iluminadas” vêm desde há muito estragando (na minha modesta opinião aquele espaço deveria ser exclusivamente destinado a zona de lazer, não devendo ser permitido passar por lá sequer uma trotineta) mas, dizia eu, a referida praça está normalmente associada ao chamado “centro do poder político em Portugal”.

Já se sabe que hoje não é completamente assim, mas ainda por lá se mantêm alguns ministérios, e a tradição nestas coisas ainda conta muito, quanto mais não seja pela simbologia que encerra.

Ora no passado sábado, e na sua habitual crónica no “Sol”, José António Saraiva falou de algo a que chamou o encontro até há pouco impossível, referindo-se à participação na campanha de António Costa para a Câmara de Lisboa de pessoas até há alguns anos nos antípodas políticos uma da outra, sendo no caso concreto, Saldanha Sanches e José Miguel Júdice.

Refiro este facto apenas porque foi ele que motivou este artigo de hoje, mas não pretendo falar sobre nenhuma das personalidades em causa.

O Meu objectivo é tentar perceber “O Terreiro do Paço”.

 

É que, de uma forma geral, os nossos políticos quando chegam ao poder, de duas uma:

-ou não sabiam o que iriam encontrar em caso de lá chegarem;

-ou ficam de tal modo “anestesiados” pela beleza da praça (talvez fosse melhor dizer: deslumbrados com a beleza do poder)

Que rapidamente se esquecem que não é ali (no Terreiro do Paço) que começa e acaba o país.

E isto seja qual for a região de Portugal de onde sejam provenientes.

Se é preciso tentar encontrar uma explicação razoável para semelhante coisa, talvez sirva esta:

-sendo muito bonito, o “Terreiro do Paço” é limitativo dos horizontes.

O que dali se vê do resto do país é o Tejo, um bocado da outra margem do rio, nada mais para sul, e nada para norte.

Admito que, ao fim de algum tempo de ali permanecer, um qualquer governante acabe por ir ficando curto de vistas, rapidamente esquecendo o chamado “país real”, e ir construindo dentro de si, e de modo insensível, uma imagem de Portugal que nem de longe nem de perto se confina àquelas três paredes e ao rio.

 

Num livro chamado “Os Valores em Perigo” o antigo Presidente Norte Americano Jimmy Carter, e também Prémio Nobel da Paz, escreve (falando da realidade e de algumas incongruências que se constatam ainda hoje na sociedade americana, e na sua relação com os sucessivos governos daquele país) a dado passo o seguinte:

 

“Tal como acontece com as pessoas, as características admiráveis de uma Nação, não se definem pelo tamanho nem pelas proezas físicas. Quais são alguns dos outros atributos de uma superpotencia?

Mais uma vez, podem facilmente espelhar os de uma pessoa, Incluem um empenho demonstrável na verdade, na justiça, na paz, na liberdade, na humildade, nos direitos humanos, na generosidade e na defesa de outros valores morais”.

 

Ora, salvaguardadas as óbvias diferenças, isto aplica-se por inteiro à simbologia do “Terreiro do Paço” português.

Afere-se a realidade do país por valores desenraizados da sua genuinidade mais profunda, assume-se uma atitude de arrogância e autoridade distante, como que a dizer está tudo sob controle, nada nos escapa, e traçam-se metas e objectivos à medida e dimensão da “sociedade” que vivenciamos, e não da sociedade portuguesa real.

 

O que provavelmente isto tem de “preverso” é que realidade social e exercício político não são totalmente compatíveis, e mesmo involuntariamente (e acredito que o seja na esmagadora maioria dos casos) o desacerto ou desencontro das decisões com as necessidades do povo acontece por causas estranhas à própria ciência política, e que esta não consegue explicar completamente.

 

Então façam os nossos políticos o favor de ter redobrado esforço para, ali chegados (ao “Terreiro do Paço”), não se esquecerem do verdadeiro país que os elegeu e os colocou nas cadeiras do poder.

 

Talvez com isso se consigam evitar episódios deprimentes, como os que recentemente sucederam em Portugal, e onde entravam histórias de “empregos a substituir ou compensar desempregos” ou “partes do país que são falsos desertos e por isso não merecem a honra ou a benesse de avultados investimentos públicos”.

 

Peço desculpa mas isto tem de ser dito:

-É urgente que o façam a bem da Nação.

 

Além do mais acho que é sua obrigação fazê-lo.

 

Henrique Dias Pedro



publicado por H.Dias Pedro hdp às 00:03
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