Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Terça-feira, 5 de Junho de 2007
Os Perigos Do Autismo Político E Social

Ao que parece a recente  greve “geral” virou feitiço contra o feiticeiro. Os vários sectores sindicais e políticos ligados à mobilização para a greve, onde se destaca naturalmente o PCP, questionam-se agora sobre as vantagens do que denominam “uma aventura”.

Embora não se estranhe completamente tal tipo de reacção, causa alguma perplexidade.

Então os líderes políticos e sindicais não pré-avaliam a realidade social, a própria dinâmica dos momentos políticos, e só depois decidem das vantagens e inconvenientes de tais acções?

Não é preciso ser-se doutorado em ciências sociais e políticas para perceber que Portugal passa, também neste domínio, um período de autentica anorexia.

As pessoas vivem preocupadas, amedrontadas, receosas de perder o último reduto que lhes serve de garante à sobrevivência, isto é, o seu emprego.

E o Governo sabe-o melhor que ninguém.

Claro que não vou entrar por esses estafados anúncios de situações de ameaças de despedimento e outras coisas do género, que nestas alturas alguns fazem gáudio de exibir ou denunciar. Admitindo que possam ter acontecido alguns casos pontuais desta natureza, não serão decerto em número e qualidade significativos para ter contribuído para aquilo que todos sabemos:

-A greve geral de 30 de Maio foi um fiasco.

Ocupam sobretudo a minha atenção dois ou três aspectos mais importantes.

Desde logo o “mergulho de cabeça” dos principais dirigentes do PCP em tal matéria, a começar por Jerónimo de Sousa que, logo no dia seguinte à greve, deu uma entrevista à RTP onde abordou largamente o assunto, e em nenhum momento foi capaz de encontrar explicações para o inexplicável, diga-se, a teimosia do PCP em defender a greve, contra todas as evidencias, e introduzindo até um novo conceito, o de “greve total”.

Em segundo lugar, e mais importante, a transformação mental que começa a ser notória nas massas trabalhadoras, com a crescente e gradual perda de influencia das estruturas sindicais.

Neste ponto salta à vista a posição incómoda de Carvalho da Silva que, tanto quanto se sabe, nunca foi um entusiasta desta greve, tentando impedir a sua realização, e saindo vencido na respectiva votação na CGTP.

Apesar disso, foi ele, como secretário geral, a dar a cara pelo movimento, e só isso chega para perceber que estamos diante de um homem de coragem, que assume o “bom” e o “mau” do cargo que desempenha.

Finalmente, e aqui sim, trata-se de matéria preocupante, parece que se está a perder a noção de participação social e de força reivindicativa de classe.

Há alguns anos atràs, e usando o velho chavão dos “trabalhadores”, atrevo-me a adivinhar que a adesão a uma greve com as características e envolvimento social desta última teria sido muito maior.

As chamadas “massas trabalhadoras” nem sequer pensariam um minuto nas questões ligadas ao perigo de perderem empregos, de ficarem em situações totalmente desprotegidas.

A luta social era assumida de peito aberto, sem medos, consciente dos riscos, mas sabendo que, e afora alguns exemplos delirantes que também aconteceram, uma greve, pequena ou grande, abalava sempre as estruturas do poder.

A percepção que se tem nos dias de hoje é que já nem isso existe, essa frontalidade de lutar por “uma causa”, de ir em frente contra o que quer que seja.

Aderir ou não a uma “jornada de luta” passou a ser um acto refletido, ponderado, em que o principal factor de determinação é o interesse pessoal, com o necessário desfavorecimento das causas colectivas e de massas.

Pergunto-me até se essa consciência de luta, no sentido  mais rigoroso e tradicional, terá existido naqueles que aderiram à última greve?

Em qualquer caso, e esta é para mim a questão fundamental, a globalização está a destruir todos os elementos caracterizadores da sociedade, impondo paulatinamente noções de normalização e contenção, onde antes vingavam princípios de ética social e defesa de direitos.

 

Há poucos dias, ao entrar num estabelecimento comercial, fui atendido por uma funcionária que, ao fim de algum tempo, acabou por me dizer ser licenciada com um determinado curso superior.

E o comentário que ela própria fez foi do género:

 

“E muita sorte tenho eu, que consegui um emprego de balcão. Muitos colegas meus de curso estão no desemprego”.

 

Casos destes, como se sabe, passam-se em Portugal às centenas, senão aos milhares.

Esta é, infelizmente, a realidade social que criámos ao longo dos tempos.

E diga-se que isto não é exclusivo nosso,

 

O que tal facto induz de “tenebroso” é a inadequação das novas teorias e doutrinas políticas, para já não falar da geração de líderes políticos, à realidade social que se propõem desenvolver.

 

O que isto propicia é criarem-se desnecessariamente os germens de uma revolta contida e calada, que algum dia explodirá como uma bomba.

 

De facto a famosa “globalização” veio favorecer meia dúzia no meio de multidões.

A cultura do oportunismo e clientelismo cada vez se torna mais dominadora.

Até ao dia em que for irreversível criar-se o “caos” para nascer uma sociedade nova.

Lamenta-se o autismo que assola os nossos políticos dos tempos que correm.

 

Henrique Dias Pedro

 



publicado por H.Dias Pedro hdp às 00:03
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