Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Terça-feira, 12 de Junho de 2007
O Insulto, A Rotulagem ou O Politicamente Correcto

 (O artigo de hoje foi publicado pela primeira vez no blog “O Tripé” em 21 de Setembro de 2005.

Em Março de 2007  O Tripé passou definitivamente a Fabulário.

Republica-se hoje na íntegra em “A Muralha”.

Salvaguardadas algumas questões de pormenor, mantém-se actual.

Gradualmente serão aqui republicados os primeiros artigos de “O Tripé”)

 

O Insulto, A Rotulagem ou O Politicamente Correcto

 

O título de hoje talvez devesse ser "Os Apeadeiros da República". Porquê? Este país parou há muito tempo, e quando arranca é para curtas viagens com paragem obrigatória num qualquer apeadeiro salvador. Como aqueles combóios já cansados de muitos quilómetros de carris que não conseguem fazer uma viagem de meia hora sem parar, tendo de recarregar baterias uns cinco minutinhos num apeadeiro em intervalos de viagem de quarto de hora. O último ano e meio é um exemplo gritante dos apeadeiros de paragem obrigatória. Às tantas os nossos políticos não têm folego para mais.

 

Em 2004 foi o Euro, qual génio de Aladino que veio encher de sonhos desportivos milhões de cabeças. E por uns meses, práticamente desde o princípio do ano o país viveu preocupado com o sucesso do Euro. Para bem dos políticos o protagonista nacional era o presidente da Federação Portuguesa de Futebol com aparições diárias em todos os jornais e telejornais a anunciar mais uma novidade qualquer que iria acontecer em Junho e Julho de 2004.

Mas o Euro passou (e até nisso o nosso desencanto sobressai com aquela derrota desportiva em que ninguém queria acreditar) e o combóio andava mal, devagar, devagarinho, sem apeadeiro salvador à vista.

 

De repente o Primeiro Ministro vai para Bruxelas, e o país parou. A questão passou a ser: O Presidente da República dissolve ou não dissolve a Assembleia? E em 10 de Julho de 2004 o Presidente decide não dissolver, nomeando Santana Lopes para Primeiro Ministro. Até ao dia 17 de Julho foi um vai-vém de contactos, quem fica no Governo, quem sai do Governo, e o país...parado.

 

Em 17 de Julho a posse do Governo.

Mas logo aí o discurso do Presidente foi novo apeadeiro: Governo sob vigilancia presidencial. Pudera...

O que algumas figuras da esquerda, e sobretudo do Partido Socialista não disseram do Presidente nessa altura...

 

Agosto mês de férias, e o país parado.

Setembro preparação do orçamento.

Outubro as famosas "trapalhadas do Governo". Novembro o apeadeiro da reconciliação: O Presidente dissolve a Assembleia.

Troca de mimos e galhardetes, governo em gestão, governo em plenitude de funções, precedente histórico perigoso dissolvendo uma Assembleia com uma maioria de coligação estável.

 

Dezembro o mês das tradicionais festas.

A demissão do Governo. E o país...parado.

 

Janeiro de 2005 já se está em pré campanha eleitoral. Fevereiro as eleições.

O regresso de uma esquerda que meio ano antes chamara tudo e mais alguma coisa ao Presidente da República, e que agora lhe canta hossanas de glória pelo acto corajoso e clarividente. Engraçado... uma esquerda que quase quatro anos antes se atolara no "pântano", palavra de Guterres, hoje responsàvel da ONU para os refugiados (às vezes a política tem cada ironia onomástica...).

 

Aqui chegados convém fazer um parentesis e perguntar: -quem foi que disse e continua para aí a dizer que o problema de Portugal está em ser necessário aumentar a produtividade?

 

E a partir de Março de 2005 temos o quê?

Aumento de impostos, restrições orçamentais, a escalada de contestação social nos mais diversos sectores, sindicatos, magistrados, forças de segurança, médicos, operários, professores, gentes da cultura, funcionários públicos, e outros que mais tarde vão aparecer.

 

Curioso...um ano antes dizia-se que um dos sinais da incapacidade governativa de Santana Lopes era o ter desagradado a todos os sectores da sociedade.

E não esquecer que todo este período é atravessado por dois acontecimentos demolidores das consciencias e capazes de assoberbar o conhecimento e o interesse do mais incauto dos cidadãos. Foram os casos "Casa Pia" e " Apito Dourado". Para bem da manutenção do combóio ainda hoje persistem.

Já nem têm conta os apeadeiros.

 

Taxa de avanço do país? Parado.

Outra vez o mês de férias, e a seguir eleições autárquicas. Como é preciso distrair as atenções, escolheu-se o dia 31 de Agosto para novo apeadeiro. Sobre isso falámos no artigo anterior. (1)

Era conveniente antecipar a discussão das eleições presidenciais ( que só vão ser em Janeiro de 2006) para momento anterior à campanha das autárquicas ( que vão ser em Outubro de 2005).

É que, convém não esquecer, o que estava previsto para 9 de Outubro não eram só as autárquicas. Era também o referendo sobre a Constituição Europeia. Realmente teria dado imenso jeito. E se não têm sido a França e a Holanda estaríamos hoje em Portugal a discutir as vantagens e desvantagens da dita Constituição, e a deixar de lado aquilo que realmente nos diz respeito, a eleição dos nossos representantes no poder local.

Já nem sei se isto são apeadeiros.

Parecem mais "Favores da República".

E a seguir às autárquicas virá a saga das presidenciais, de novo com o mês das tradicionais festas pelo meio. O País? Claro, está parado há mais de um ano.

Então as eleições não são importantes?

Resposta politicamente correcta: Evidentemente! Resposta objectiva: era bom que fossem mas a avaliar pela pré campanha já entrámos outra vez na era do insulto gratuito, da má educação vendida nos horários nobres das televisões, das promessas sem fim dos vendilhões de sonhos.

 

Permite-nos porém confirmar um outro desígnio da nossa história recente: uma questão ou dúvida exposta por alguém politicamente conotado com a direita é uma manifestação de patriotismo serôdio, quando não de propaganda autoritarista, neo nazi, ocultando um desejo de regresso ao salazarismo.

 

Uma ofensa ou um insulto proferido por alguém conotado com a esquerda é um hino de salvação da Pátria, um cantico de glória à democracia, uma prova de civismo, e a melhor forma de defender o regime do respeito pelas opiniões alheias.

 

De repente, até as Forças Armadas entram em convulsão reivindicativa, elas que por acaso (e não interessa agora escalpelizar as suas motivações profundas) até foram o motor e agente de derrube do antigo regime.

 

Se alguém tem a ousadia de discordar de uma qualquer decisão ou proposta, mesmo que o faça apenas no puro exercício de um direito de opinião que a nossa (por enquanto única) Constituição consagra, leva logo o rótulo de anti-democrático, intolerante, quando não mesmo o de invejoso ou egoísta.

 

Acho que Portugal já viu este filme em que a discordancia era mal aceite e quantas vezes repudiada. E estávamos tão sós nessa viagem que o rótulo do "orgulhosamente sós" fez escola nos cursos de aprendizagem dos candidatos a democratas.

Por acaso o povo português tem, entre outros, um dito curioso: "às vezes vale mais só que mal acompanhado".

 

E se recuarmos históricamente mais alguns anos constatamos que este mesmo filme já teve produção nacional repetidas vezes. Bom seria que os nossos políticos se deixassem de promessas gratuitas que sabem à partida que não cumprirão, e se limitassem a dizer o que se propõem fazer para "tentar" resolver os problemas que já existem e atormentam os portugueses.

 

Em Dezembro de 2001 o então Primeiro Ministro demitiu-se porque, palavras dele, "não queria contribuir para que Portugal se tornasse num pântano".

 

Se não arrepiarmos caminho e pusermos fim a estes intermináveis apeadeiros politicamente correctos, será infelizmente caso para dizer que, louvando-se embora a tomada de consciencia inerente a tal gesto, veio tarde demais.

 

O Povo Português costuma levantar-se nas derrotas e à falta de melhor agarra-sa à simples sabedoria popular para continuar a acreditar que é possível e que o mundo não desaba.

 

É outro dito popular incontornável: "enquanto há vida há esperança".

Talvez ainda haja tempo para secarmos o pântano.

 

Henrique Dias Pedro

 

(1) Anúncio da candidatura presidencial de Mário Soares.



publicado por H.Dias Pedro hdp às 00:03
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