Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Terça-feira, 26 de Junho de 2007
Coincidencias Justiceiras

Este artigo foi publicado pela 1ª vez em 15 de Janeiro de 2007 no blog “O Tripé”.

Republica-se hoje na íntegra em “A Muralha”.

 

Coincidências Justiceiras

 

Às vezes há momentos assim. Queremos nós teorizar sobre algo ou alguém que por qualquer razão se tornou importante referir na nossa sociedade, acontecimento ou pessoa que, por serem significativos merecem destaque, seja em que sentido for, e eis que outrém aparece a falar e escrever sobre os mesmos temas e, mais curioso ainda, a explanar opiniões sobre tais acontecimentos ou pessoas com tal conteúdo que a nós próprios parece ter-nos lido o pensamento.

 

São aqueles típicos casos em que – mecanismos por vezes insondáveis – nos sentimos identificados com o pensamento alheio e somos por vezes levados a crer que tal identificação não é um mero acaso, e usamos expressões como “pensa exactamente como eu”, “até parece que adivinha os meus pensamentos”, “tirou-me as palavras da boca” etc...

 

Esta declarada identificação pode no entanto ser meramente ocasional, ou verificar-se apenas num dado caso concreto.

Em qualquer dos casos é sempre gratificante sentir que em certas linhas de pensamento não estamos sós, nem temos que recear expor os nossos pontos de vista quando o fazemos sériamente e como resultado de consciente e convicta reflexão.

 

Vem isto a propósito dos dois últimos textos de José António Saraiva no semanário SOL na sua crónica “Política a Sério” em 6 e 13 de Janeiro de 2007.

 

No primeiro escrevendo sobre Maria José Morgado, magistrada do ministério público incumbida de pôr em ordem as investigações no mundo do futebol e designadamente o célebre “Apito Dourado”.

 

O segundo sobre a eurodeputada do PS Ana Gomes e a sua “gritaria” àcerca dos famosos voos da CIA sobre território português transportando prisioneiros políticos.

 

Não respeitando a ordem semanal de tais textos mas porque a nosso ver os mesmos contêm considerações que merecem alguma reflexão, até por aquilo que indiciam como caracterizador do que é sentir e ser português hoje em dia (social e políticamente falando) comecemos pelo último.

 

José António Saraiva faz um inteligente recuo ao passado lembrando (como aliàs já o fizera no caso de Maria José Morgado) a militancia no MRPP e a indisfarçável tendencia para a propaganda anti americana, e fazendo até um reparo àquilo que deveria ser, no seu ponto de vista, alguma contenção como eurodeputada portuguesa ao pôr em causa nos palcos europeus os métodos de actuação do governo português (dando-se aqui a circunstancia curiosa de o governo em funções ser um governo de maioria absoluta do PS).

Conclui José António Saraiva que tal forma de actuar só se compreende pela incontida gula de Ana Gomes pela mera propaganda política.

Está bem, diremos nós.

Mas a verdade é que, sendo há muito evidente que Ana Gomes tem uma especial apetencia pela gritaria política, ficou a pairar a dúvida sobre se tal propaganda é meramente ocasional ou visa ir um pouco mais longe. E aqui as coisas complicam-se porque, tendo de haver sentido de Estado, tem de haver também noção de Pátria, e às vezes os descuidos traem as aparentes boas intenções.

A história dos voos da CIA começou ainda nos tempos do governo de Durão Barroso, hoje presidente da Comissão Europeia, e curiosamente também ele antigo militante do MRPP dos tempos da Ana Gomes.

Será que a senhora cuidou de pensar, antes de promover todas as movimentações a que deu causa, que pode estar a provocar uma crise no ambito da própria Comissão Europeia e a pôr em cheque a posição do seu presidente, o português Durão Barroso?

Ou será que tais movimentações não se devem apenas ao mero gosto pela propaganda anti americana, visando ganhar espaço político no terreno de um teórico adversário, que sendo embora português, pertence a uma área política diversa e a quem se pretendem apontar os principais erros e culpas no caso dos famosos voos?

Pelo menos dá que pensar.

 

Quanto a Maria José Morgado, permito-me transcrever algumas passagens da crónica de José António Saraiva.

“Confesso que a imagem que tenho da pessoa em causa não coincide exactamente com a da maioria. Físicamente, Maria José Morgado surge-me como uma personagem de teatro, saída de uma peça em cena em Montmartre. Depois não consigo ler-lhe o interior, acho-a misteriosa e opaca. Finalmente, contradiz a idéia que eu tinha da Justiça.”

 

E mais à frente:

“...em várias intervenções na televisão vi Maria José Morgado lançar suspeitas sobre os dirigentes do futebol ou os presidentes das câmaras sem sentir necessidade de as fundamentar. Sempre que lhe pediam para concretizar o que dizia, fazia aquela expressão irónica e sofrida que é tão sua, encolhia os ombros – e não abria a boca.”

 

Sobre tudo isto apenas uma referencia: não podia eu estar mais de acordo.

 

Há depois um episódio que, a ser verdadeiro, é algo desabonatório para aquilo que se supõe seja a qualidade e clarividencia de Maria José Morgado. Trata-se daquilo que José António Saraiva relata quanto ao “mau aspecto e conteúdo” da carta de demissão que em tempos a senhora magistrada endereçou ao director nacional da Polícia Judiciária. Sobre isso, até porque não conheço a carta, nada digo, mas fica a pergunta:

-Se é verdade o que José António Saraiva diz a tal respeito será que podemos acreditar nas investigações sobre o futebol?

Não estaremos perante algo parecido com alguém que já teve estatuto e proeminencia nos meios da Justiça, que teve depois o seu tempo de esquecimento, e agora tenta reganhar esse digamos “seu antigo espaço”?

 

É curioso que se bem nos lembrarmos Ana Gomes teve o seu apogeu político fora de portas enquanto heróica (assumimos neste caso o genuíno significado da palavra) embaixadora de Portugal na Indonésia nos infernais tempos antes da independencia de Timor Leste.

Será apenas coincidencia?

 

 

Henrique Dias Pedro

 



publicado por H.Dias Pedro hdp às 00:03
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