Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Quinta-feira, 12 de Abril de 2007
UMA IDENTIFICAÇÃO AINDA POR FAZER - Editado em 3/4/2007
Notável o artigo de José Pacheco Pereira no Público do último sábado.
Sob o título "Hábitos Velhos e Relhos" aborda a aparencia da diferença entre aquilo a que chama um "salazarista difuso" e um "políticamente correcto".
Transporta para o ecrã da análise política pretensiosa dois factos recentes e que "incomodaram muitas boas consciencias", a vitória de Salazar no famigerado concurso de televisão, e um cartaz do PNR, Partido Nacional Renovador, contra a imigração, e com aspectos aparente xonófobos e racistas.
A vários títulos tenho dito que um dos males da nossa sociedade actual, e refiro-me em concreto à sociedade portuguesa, é o império do políticamente correcto, do faz de conta que é mas não é, faz de conta que disse mas não disse, faz de conta que estou contra qualquer coisa mas não estou.
Importa montar o circo das aparencias para satisfazer clientelas, angariar apoios, ou conseguir benesses a qualquer preço.
O terreno lateral e cosmopolita fora dos partidos é imenso para congeminar cenários, refazer "amizades" de conveniencia, trocar ou fazer que se troca de camisa política a bem do interesse nacional, nunca em nome de ambições pessoais ou de corporativismos instalados.
Pacheco Pereira desmonta o quadro da dita diferenciação do corporativismo salazarista com aquilo que temos hoje, um corporativismo se calhar ainda mais feroz e arrebatador, que ninguém ousa assumir de frente exactamente em nome do políticamente correcto.
Desvalorize-se o que se quiser o dito concurso, a verdade é que o chamado "Portugal Profundo", e aqui não excluímos nenhuma parte do país, continua a viver dependente de uma imagem de paternalismo autoritário, a invocação frequente de valores como a ordem e a segurança, ao ponto de, quando o poder é exercido na base do simples diálogo normalmente resvala para a ineficácia, quando não para a própria omissão ou inacção.
Daí que seja frequente vermos os nossos principais partidos políticos perderem-se em guerras de alecrim e manjerona sobre assuntos que em si mesmos não teriam, não fosse a importancia que lhes é dada, força suficiente para marcar a agenda e os actos.
O poder das democracias é aparentemente forte pelo lado da partilha e participação, mas é também por isso mesmo muito frágil, denotando uma quase incontrolável tremideira perante um acontecimento inesperado.
À falta de soluções próprias, que os regimes democráticos muitas vezes não têm para explicar as suas contradições, recorre-se à marcação de rótulos, à classificação pelo puro negativismo, e de vez em quando até à insolencia e má educação.
De facto que mal faz ao país que Salazar tenha ganho o concurso?
Não se está a ver no horizonte o aparecimento de uma qualquer nova Pide a controlar todos os nossos passos. O que acontece é que para o regime instalado, e dada a fragilidade filosófica e sociológica que o sustenta, tal vitória é inexplicável, e por isso é tida por ameaçadora.
E do mesmo modo o cartaz do PNR.
Pacheco Pereira diz, e bem, que o perigo não está no cartaz, mas sim na hipocrisia da nossa atitude face à imigração, que se traduz num olhar paternalista do complexo de culpa multicultural que é transversal na nossa sociedade, lembrando até o exemplo de alguns políticos que ainda há pouco tempo defendiam ideias não muito diferentes das que o dito cartaz propugna.
Do que se trata, diz ainda Pacheco Pereira, é fazer exorcismos sobre aquilo que se pensa mas não convém que se diga.
Não anda muito longe desta análise o meu pensamento sobre estes temas.
Nos vários espaços de opinião que mantenho, e para quem mais frequentemente os tem acompanhado, é perceptível esta ideia de fragilidade e omissão. Por muito que custe a aceitar ainda não podemos dizer que a democracia que temos está suficientemente amadurecida para "saber" passar incólume diante de visitas inoportunas como as que atràs referimos.
Vencer este fantasma não depende do tamanho do país. Depende apenas do tamanho das mentes que assumem como suas, na base de ideologias ultrapassadas, coisas que há muito o tempo se encarregou de abolir da ementa social e política dos portugueses.
A verdade é que "ninguém" em Portugal quer ser salazarista, e também "ninguém" quer ser  racista.
Mas também é verdade que ninguém quer viver mal, ou andar de mal a pior.
Falta que os políticos de hoje se saibam identificar com o povo a que pertencem.
O problema só se poderá agravar se não souberem fazê-lo.
Henrique Dias Pedro


publicado por H.Dias Pedro hdp às 03:26
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