Blog de Opinião de HENRIQUE DIAS PEDRO; Normalmente às 3ªs. feiras
Quinta-feira, 12 de Abril de 2007
COMO JÁ SE SUSPEITAVA... - Editado em 10/4/2007

São as últimas notícias relativas à União Europeia e à pressão que vai ser feita sobre Portugal quanto ao exercício da respectiva Presidência no segundo semestre deste ano.

Como já adivinhava em artigo publicado há dias em outro espaço de opinião (Abordagens) e a propósito da Declaração de Berlim por alturas das comemorações dos 50 anos da Europa, deixei no ar uma pergunta que era também uma insinuação: “Estejamos alerta…não venha por aí um qualquer artifício que tente impedir-nos de dizer o que pensamos sobre a Europa”.

Pois o que é preciso é conhecer bem a classe política que hoje domina o espaço europeu, formada no esplendor do liberalismo económico da década de oitenta, atravessada pelas influencias remotas das revoluções basistas de índole operária, mas condicionadas por estilos de vida aburguesados, florescente no fascínio de viver além-fronteiras, acto um tanto luso provinciano de antever e ambicionar sempre tudo de bom desde que seja “para lá de Vilar Formoso”, e finalmente enriquecida nas mordomias do “europeu moderno” centralizado em Bruxelas mas com contactos de excelência em Paris, Berlim, Londres, e outras grandes capitais.

Curiosamente sítios onde o “Euro”, a moeda, tem mais poder de compra, ressalta maior confiança, e dá por esquecidos todos os pequenos recantos onde se torne insensível ou absolutamente inócua qualquer prova de fragilidade ou ineficiência da União Europeia.

Quem dita as leis continuarão a ser os grandes da Europa, e os outros que se amanhem como puderem.

Há hoje cargo mais apetecido pelos nossos políticos do que passar uns tempos em Bruxelas ou Estrasburgo?

Com viagens e estadias pagas?

A poder falar as línguas todas, agora até as dos novos membros de leste, menos a língua portuguesa?

Esta última, claro, só quando se fala para a comunicação social cá do burgo.

A este respeito, e só como parêntesis, que tal essa história de o nosso Parlamento não conceder a Durão Barroso a dignidade de discursar na Sala do Plenário, mas apenas a Sala do Senado?

Sabendo-se que ele, enquanto Presidente da Comissão Europeia, tem discursado nos salões principais dos vários parlamentos europeus?

Só no país dele, e com a complacência do partido que está no Governo, é que tal não é possível.

De facto continuamos bem…

Mas, quando atrás refiro a classe política que hoje domina o espaço europeu, não estou a cingir-me aos políticos portugueses.

O traço é comum a todos os outros, que a grande panela europeia dá para tudo.

Coincidência ou não este fim de semana aparecem nos dois principais semanários de Portugal duas notícias de sinal comum, mas sob forma diferente.

O “Expresso” refere as pressões que Sócrates e o Governo Português começam a sentir, em alguns casos por contacto directo do próprio Durão Barroso, para não submeter a referendo em Portugal qualquer novo Tratado. É inconsequente, inútil, e pode trazer obstáculos difíceis aos objectivos da União.

Acena-se inclusivamente com o rebuçado de Portugal organizar uma Conferencia Inter Governamental, com todo o estadão e prestígio que isso traria para a presidencia portuguesa.

E José Sócrates que nesta matéria tem mantido, honra lhe seja feita, total coerência, ao manter viva a promessa eleitoral de realização de um referendo, já começa a divagar no discurso (ele não, o Governo todo) dizendo que isso do referendo poderá vir a ser reequacionado desde que haja um indiscutível e uniforme movimento de todos os 27 países da União.

A outra notícia é a entrevista do eurodeputado João de Deus Pinheiro ao “Sol”.

Diz ele claramente que fazer um referendo sobre questões de mera funcionalidade interna da União, aquilo a que chama aspectos meramente funcionais e burocráticos, não faz sentido nenhum.

Tem toda a razão o senhor eurodeputado se fosse disso que se tratasse.

Mas todos sabemos que não é.

O que ficou apontado na Cimeira de Berlim foi ter em vigor em 2009 a famosa Constituição Europeia.

E vai caber a Portugal ainda em 2007, lançar as bases para esse desiderato.

A coisa é tão clara que o próprio João de Deus Pinheiro acaba por dizer que tudo vai depender do resultado das eleições presidenciais francesas.

De facto é sabido que Sarkozy, Sègolène, Le Pen, ou mesmo Beyroux, têm opiniões divergentes nesta matéria.

E mais uma vez vem ao de cima a intolerância eurocrata.

Deixa-se insinuado o anátema de que quem for a favor do referendo é anti-europeu.

Claro, anti-europeu de uma “Europa” feita e moldada à medida dos interesses desses senhores, que não à medida dos interesses e vontades dos povos respectivos, daqueles conjuntos de pessoas que, seja em Portugal ou em França, na Itália ou na Bulgária, na Alemanha ou na Roménia, têm de trabalhar no duro, pagar impostos por tudo e mais alguma coisa, lutar dia a dia a contar os euros, simplesmente para terem uma vida mediana, aparentemente com alguma (pouca) qualidade, mas que permita aos grandes senhores viverem sem terem de se preocupar com o preço seja do que for.

Peço muita desculpa mas se é esse o entendimento desde já me declaro anti-europeu.

Só que eu, como a esmagadora maioria dos cidadãos por essa Europa fora, sabemos em que Europa acreditamos, e atrevo-me a dizer que não temos interesse nenhum em fazer de conta que pertencemos a uma superpotencia económica e política. Isso  é coisa que não nos serve de nada, e além disso, não estamos a pensar ter de fazer frente aos Estados Unidos da América.

No caso de Portugal ocorre-me uma entrevista do actor Nicolau Breyner ao semanário “Sol” há umas semanas atrás. Dizia ele que, no que nos diz respeito, não via que a Europa tivesse trazido algo de bom.

Estou para ver qual vai ser a tomada de posição do PSD sobre esta matéria. Ou mantém a coerência de exigir o referendo ou, a troco de qualquer coisa que os meandros dos gabinetes às vezes proporcionam, vai assobiar para o lado, fazendo de conta que não percebe o que se está a passar.

Apesar de eu ser (como já a vários títulos se pôde concluir de opiniões que tenho expressado) um crítico interno da macrocefalia lisboeta, tenho o direito de dizer, como português de pensamento livre, que quero o Governo do meu país não em Berlim ou em Bruxelas, mas em Lisboa.

E sem pedir desculpa a ninguém, muito menos a quem vive à grande à custa do meu trabalho, e do de outros como eu, afirmo aqui claramente que não me sinto menos europeu do que eles.

Mas também fica um aviso: se forem por esse caminho, não contem com o meu voto para continuar a encher a barriga a uma meia dúzia de inúteis.

 

Henrique Dias Pedro



publicado por H.Dias Pedro hdp às 03:32
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